
Ouvi, quando criança, uma história que guardei no coração. Porque as crianças são assim: guardam as histórias que contamos no coração. Por isso, devemos sempre estar atentos àquilo que contamos a elas.
Pois esta eu guardo até hoje. Acho que continuo criança. A bem da verdade, gosto disso. Quero continuar com espírito de criança por todos os meus anos vividos. E torço para que sejam muitos! Há poucos dias, li sobre uma senhora, tida como a mais velhinha que pisava sobre a Terra. Pisava, não pisa mais. Ela fechou os olhos definitivamente aos 131 anos de idade em casa e sem doenças aparentes. Já um pouco cansada, apenas dormiu profundamente. Deixou um filho adotivo com 86 primaveras vividas.
Digo que quero viver menino, pois acho as crianças sinceras e alegres. Já pensou ser sincero e alegre por 131 anos? Sonhos são sonhos e, um dos meus, é viver menino e morrer poeta.
Pois bem, voltando à história de que sou guardião, lembro-me dela com clareza. Diz que, certa vez, um Nazareno peregrinava e, vendo que muita gente o acompanhava, parou, se assentou e começou a falar sabiamente àqueles transeuntes. Antigamente os sábios, quando iam dizer algo, costumavam se assentar no chão. Foi isso que ele fez. A multidão estava em pavorosa, agitada, ansiosa para vê-lo, sobretudo, para ouvi-lo. Com voz mansa, ele proferiu um verdadeiro poema mais ou menos assim:
“Felizes os humildes de espírito, porque dele é o reino dos céus.
Felizes os que choram, porque serão consolados.
Felizes os mansos, porque herdarão a terra.
Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Felizes os limpos de coração, porque verão a DEUS.
Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.”
É com profundo cuidado que carrego, desde a tenra idade, esta cena marcante a mim contada. Posso imaginar cada singelo gesto.
Noutra oportunidade, também nesta época, disseram-me que o Nazareno, ao ser indagado quem seria o maior no reino dos céus, chamou uma criancinha, a colocou no seu colo e, prontamente, respondeu: “se não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.”
Pensando bem, acho que tenho mais motivos para tentar viver como as crianças.
Ismael Alexandrino







